Esse é mais um texto sobre leitura

Por que a leitura merece um espaço de atenção na nossa sala de aula e no nosso coração?

Eu sei que você provavelmente já leu muita coisa sobre leitura. Parece contraditório, ler sobre leitura, mas ao longo desse texto espero contribuir um pouquinho para a compreensão do lugar de destaque desse hábito na educação e no dia a dia de professores e estudantes.

Sabemos que o desafio de ensinar em escolas públicas traz desafios que vão além das quatro paredes da sala de aula. O contexto de muitos dos nossos alunos muitas vezes torna muito mais difícil a criação do hábito da leitura por prazer, tendo impacto direto na leitura desenvolvida na escola.

Martin-Chang realizou uma pesquisa nos Estados Unidos que nos ajuda a entender um pouco melhor a questão e desenhar possíveis estratégias para superá-la. De acordo com os resultados que observou, algumas de suas conclusões são facilmente relacionáveis com o contexto brasileiro: alunos de famílias mais letradas e em melhores condições socioeconômicas têm maior possibilidade de serem apresentados ao hábito da leitura, bem como de vivenciar experiências que lhes permitam ter mais facilidade para isso. Por outro lado, alunos de famílias menos favorecidas tendem a ter esse contato principalmente (ou unicamente!) na escola. Se as escolas focam unicamente em livros didáticos, a chance de que essas crianças criem o gosto pelos livros é bem menor.

Chang enfatiza ainda a importância de expandirmos as escolhas das leituras em sala de aula, dando a oportunidade para que alunos leiam e compartilhem suas experiências na própria sala de aula. Isso pode ser feito tanto pela escolha de livros adequados e interessantes à idade para trabalhar conceitos em sala de aula, mas também para a pura promoção de momentos de lazer aos estudantes, em que não necessariamente sejam orientados a ler para a mera obtenção de uma nota.

Reforço ainda a importância de que essas práticas de leitura em sala sejam feitas não só nos anos de alfabetização, mas também nos anos finais e no ensino médio. Permitir que os alunos tenham um tempo de ler sobre temas que se interessem pode ter reflexos diretos na sua fluência em leitura dos conteúdos programáticos.

Em consonância com essas ideias, Daniel Willingham, um psicólogo cognitivo da Universidade de Virgínia (EUA) afirma que o cérebro usa de 3 processos para entender textos complexos: 

  1. Extraindo ideias de frases individuais
  2. Juntando frases e conceitos que compõem um mesmo significado, e, com isso
  3. Formando um entendimento mais profundo do texto.

Por essa razão, a prática da leitura de textos simples, mas prazerosos, faz tanto sentido para as salas de aula. É dessa forma que os alunos adquirem a habilidade de compreensão dos conteúdos e de tantos outros textos que compõem a sua vivência, podendo ter melhores resultados de leitura e interpretação de textos mais complexos.

Muitas vezes, o desafio começa desde a disponibilização de livros nas escolas ou mesmo do interesse/preocupação dos alunos em entender o tipo de livro que gostariam de ler. Pensando nisso, algumas ações possíveis são:

  • Fazer a apresentação de livros nas salas e dar a opção de, por um curto período de tempo, os alunos lerem trechos do livro escolhido. Essa pode, inclusive, ser a atividade zero da sua turma (aquele momento inicial da aula, que muitas vezes é perdido por conta da indisciplina ou falta de orientação). Assim, é possível que leiam livros inteiros ao longo do ano!
  • Organizar clubes do livro, sendo diferentes clubes para diferentes tipos de livro.
  • Orientar os alunos para que peçam recomendações de livros para outras pessoas de seu convívio. Entre outras ações possíveis!

Sabemos que, nem sempre, a leitura consegue ser prioridade na sala de aula, mesmo sendo tão presente todos os dias. Quero finalizar aqui que tudo parte também do interesse do professor e do seu próprio compromisso com o hábito da leitura. Pensando nisso, que tal tentar algumas das práticas recomendadas?

Ah, e você sabia que a Curiós tem uma solução baseada na ideia de clube do livro para professores? Se quiser saber mais sobre isso, mande uma mensagem! Vamos adorar conversar com você.

Referências:

Edutopia, por Holly Korbey. “Is it Time to Drop ‘Finding the Main Idea’ and Teach Reading in a New Way?”. Julho de 2020. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/it-time-drop-finding-main-idea-and-teach-reading-new-way. Acesso em 23/08/2023.

Edutopia, por Youki Terada. “The Benefits of Reading for Fun”. Abril de 2021. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/it-time-drop-finding-main-idea-and-teach-reading-new-way. Acesso em 23/08/2023.

Edutopia, por Sarah Gonser. “Even Older Kids Should Have Time to Read in Class”. Fevereiro de 2021. Disponível em: https://www.edutopia.org/article/even-older-kids-should-have-time-read-class. Acesso em 23/08/2023.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!