Uso de métricas educacionais e o clima escolar

Reflexões sobre o bom uso de métricas educacionais e seu impacto na motivação de professores na comunidade escolar

A escola no século XXI passa por um momento de redimensionamento. Isso se dá especialmente diante da compreensão do papel da tecnologia de dados e evidências para potencializar os métodos pedagógicos e, principalmente, avaliativos. Contudo, pouco se sabe ainda sobre o impacto das métricas educacionais e sua associação com a motivação dos professores no bom andamento do clima escolar.

No que diz respeito ao desempenho dos estudantes, cada vez mais é comum o uso de evidências para guiar políticas educacionais que abordem as fragilidades formativas identificadas, via de regra, em instrumentos avaliativos como provas. Além disso, observa-se uma tendência mundial de atrelar métricas de desempenho discentes diagnosticadas em provas com o desempenho dos docentes, trazendo muitas implicações para a realidade dos professores e a comunidade escolar.

Esse novo contexto traz à tona o debate: além de como mensurar o aprendizado dos alunos, como mensurar o desempenho dos professores? E qual a melhor forma de conduzir isso: associando os resultados de provas escolares à bônus salariais, prêmios nominais, acesso a fundos educacionais pelas escolas? E quais são as implicações disso para a comunidade escolar?

A profissão docente é marcada por grandes dificuldades, que passam pelos baixos salários, alta carga horária, indisciplina dos estudantes, pressão das entidades escolares superiores, entre outros, de modo a ser primariamente um ofício associado a estresse. De fato, é cada vez mais comum casos de professores enfrentando casos clínicos de esgotamento mental, o chamado “burnout” (falamos mais sobre isso neste outro post!).

Nesse cenário, o uso frequente de mensuração do desempenho docente com base no desempenho dos alunos em provas prejudica ainda mais o nível de estresse desses profissionais. Além disso, essa prática pode resultar também em uma forte desmotivação dos professores, levando, inclusive, ao abandono do ofício, sobretudo para aqueles em início de carreira. De modo geral, professores mais experientes estão associados a melhores desempenhos dos alunos em provas, e professores iniciantes ainda estão em processo de aprimoramento de suas metodologias e habilidades em sala de aula.

O fator do abandono do ofício em específico tem implicações financeiras, dado que resulta na necessidade de novas contratações e treinamentos pelas entidades escolares para os novos profissionais. Essa situação é ainda mais grave quando compreendemos que tais recursos poderiam estar sendo aplicados para outros fins, como infraestrutura, atividades pedagógicas, aumentos salariais, entre outros.

Outro ponto importante refere-se ao próprio instrumento da avaliação: seriam as provas com pontuação as melhores ou únicas formas de basear essas evidências educacionais ? Além disso, as áreas de conhecimento são avaliadas de formas diferentes, e professores cujas áreas são mais comumente associadas a provas tipo teste podem sofrer mais pressão em relação ao seu desempenho.

A manutenção de um bom clima escolar no qual haja relacionamentos saudáveis entre professores, coordenadores, funcionários e alunos é primordial para a atividade pedagógica, e o uso de métricas educacionais deve levar isso em consideração. Assim, é necessário haver um equilíbrio entre o uso de evidências escolares e os mecanismos de incentivo ao desempenho dos professores, considerando fatores como sua saúde mental, carga de trabalho e tempo de carreira. Nesse último ponto, deve-se levar em conta principalmente a realidade de professores jovens no ofício e pautar-se em medidas de aprimoramento e formação continuada, que trarão ótimos resultados a médio e longo prazo para a comunidade escolar.

A construção de uma comunidade de apoio entre educadores é rica em potencial para melhorar a educação brasileira. A Curiós está empenhada nessa missão, e você também pode fazer parte. Quer saber como? Entre em contato!

Referências:

Shannon V. Ryan, Nathaniel P. von der Embse, Laura L. Pendergast, Elina Saeki, Natasha Segool, Shelby Schwing.Leaving the teaching profession: The role of teacher stress and educational accountability policies on turnover intent, Teaching and Teacher Education, Volume 66, 2017, Pages 1-11.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!