A escola como agente da equidade de gênero

Ideias sobre como estimular a equidade de gênero na prática de ensino

Nas escolas percebe-se uma tendência: nas turmas dos anos iniciais do ensino fundamental as meninas são falantes, participam e expressam suas opiniões. Porém, ao avançarem as etapas, ficam cada vez mais caladas e com receio de expressar o que pensam. Porém, o que motiva essa mudança de atitude?

Na sala de aula, ensinamos sobre diversas figuras masculinas. Na matemática e ciências da natureza temos nomes como Tales, Pitágoras, Bhaskara, Arquimedes, Newton, Einstein, Bohr, entre tantos outros. Em linguagens e nas ciências humanas e sociais aplicadas aprendemos sobre Júlio César, Robespierre, Danton, Napoleão, Thomas Malthus, Camões, Castro Alves, Machado de Assis, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa e uma sequência extensa de nomes masculinos. Poucas figuras femininas como Marie Curie e Cleópatra aparecem. De forma inconsciente, aprendemos e ensinamos que homens têm um papel principal em descobertas científicas e nas influências literárias.

Para promoção da equidade de gênero nas escolas é necessário, primeiramente, a análise crítica dos materiais didáticos utilizados. Separe um momento para considerar e refletir as seguintes questões:

1. Algum material (texto, atividade, reportagem, livro) que utilizo omite meninas e/ou mulheres, ou simboliza suas experiências?

2. As mulheres e/ou os homens são apresentados em papéis estereotipados de gênero em algum material que selecionei?

3. Ao utilizar obras literárias, há equilíbrio entre autores e autoras? As histórias que utilizo em meus materiais têm protagonistas femininas? Os livros de não ficção apresentam mulheres e meninas notáveis?

Além da análise dos materiais é necessário traçar estratégias para incentivar a participação e inclusão das meninas. Algumas estratégias que podem ser utilizadas são:

1. Encoraje comportamentos não-sexistas entre os estudantes da turma. Por exemplo: encoraje e inclua meninas em discussões sobre exatas e futebol, normalmente estereotipados como assuntos masculinos. Desestimule comentários do tipo “fale igual homem”, “isso é coisa de menina”, ou “isso é coisa de menino”.

2. Faça perguntas complexas tanto para meninas quanto para meninos.

3. Se no material didático da escola são apresentadas mais figuras masculinas como exemplos de autores, cientistas, filósofos, matemáticos e pensadores, acrescente em sua aula mulheres notáveis que contribuíram para o conteúdo estudado.

4. Incentive a participação de todos os estudantes na discussão, independentemente de gênero, etnia ou capacidade de aprendizagem.

5. Promova discussões sobre exemplos sexistas vistos em artigos de revista, reportagens, obras literárias, redes sociais.

6. Elabore atividades que façam com que os estudantes explorem questões de gênero, auto-imagem e equidade.

Um exemplo de abordagem em sala de aula que promove a equidade de gênero foi o projeto Mulheres que Inspiram, realizado pela professora Gina Vieira Ponte, que juntos foram agraciados com prêmios como: Prêmio Professores do Brasil, Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos e Prêmio Ibero-americano de Educação em Direitos Humanos.

A professora primeiro propôs que seus estudantes lessem obras de autoria feminina, como Diário de Anne Frank e Eu sou Malala. Em paralelo à leitura, foi proposto aos estudantes que conhecessem biografias de diversas mulheres: jovens, idosas, brancas, negras, de diferentes níveis de escolaridade. Posteriormente, a professora levou mulheres da comunidade dos estudantes que impactaram as histórias de suas famílias e localidades. Por fim, Gina propôs que os estudantes pensassem em suas próprias vidas, quem eram as mulheres inspiradoras a partir do conceito que criaram e muitos escolheram suas mães, avós e bisavós.

Para educadores, o monitoramento contínuo da equidade de gênero é necessário para aumentar as oportunidades de aprendizagem e aproveitamento dos seus estudantes.

A promoção de discussões de equidade de gênero nas aulas escolas são extremamente necessárias e importantes, mas, além delas, deve-se apresentar nomes femininos como exemplos a serem seguidos. A BBC do Brasil, inspirada pela história de Emmy Noether, matemática alemã, publicou uma matéria sobre 10 mulheres brasileiras que deveriam ser mais estudas nas escolas. A partir dessa matéria, surgiram muitos outros nomes, gerando uma nova reportagem: “Outras mulheres brasileiras sobre quem deveríamos aprender na escola”.

E você, leitor(a), conhece alguma mulher que fez parte da história e não é muito conhecida e/ou estudada? Já implementou alguma estratégia para a promoção da equidade de gênero? Conta pra gente!

Ah, e para continuar lendo sobre o tema, convidamos você a conferir esse outro post do nosso blog 😉

Referências:

Alber, Rebecca. Gender Equity in the Classroom. Edutopia, 2017. Disponível em: https://www.edutopia.org/blog/gender-equity-classroom-rebecca-alber . Acesso em: 28 de abr. de 2021.

Fernandes, Priscila. Gina Vieira Ponte – Inspirar e ser inspirado. Fundação SM, 2017. Disponível em: < http://www.fundacaosmbrasil.org/noticia/gina-vieira-ponte-inspirar-e-ser-inspirado/>. Acesso em: 28 de abr. de 2021.

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!