Lista de objetivos para formação de professores: ouvir para gerar mudanças

Outros 4 temas para a lista de objetivos para formação de professores

Dando continuidade ao artigo “Lista de objetivos para formação de professores: é necessário olhar para os desafios para solucioná-los”, hoje vamos trazer mais 4 temas para compor a lista em questão, além de metodologias ativas, inclusão e diversidade, educação socioemocional e tecnologias educacionais.

O Todos pela Educação, em conjunto com o Instituto Península, o Profissão Docente e o Itaú Social, encomendou uma pesquisa ao Ipec para ouvir a opinião de professores e professoras de escola pública do Ensino Médio e do Ensino Fundamental de todo o país. Divulgada em março/2023, a pesquisa realizou entrevistas telefônicas com 6.775 professores, de 5 de julho a 9 de dezembro de 2022. Entre os resultados obtidos, alguns colaboram diretamente para refletir sobre a formação de professores:

  • “19% dos professores concordam totalmente que os atuais cursos de pedagogia e licenciaturas estão preparando bem os professores para o início da profissão” (Todos pela educação et al., 2023);
  • “84% dos professores concordam (53% totalmente e 31% em parte) que cursos presenciais formam professores mais bem preparados para a docência”(Todos pela educação et al., 2023);
  • 56% dos professores afirmam não ter recebido nenhuma orientação específica em seu primeiro ano de docência (Todos pela educação et. al, 2023).

Tendo em vista os dados expostos acima, um dos pontos a serem considerados para formação de professores são formações presenciais e contínuas para permitir ao professor aprimorar sua prática pedagógica, diante das mudanças no cenário educacional. Inclusive, nesse sentido, “20% dos professores acham importante a Secretaria de Educação disponibilizar formações pautadas na explicação de objetivos de aprendizagem e sua implementação para o cumprimento adequado do currículo da rede” (Todos pela educação et al., 2023). Ou seja, são necessárias formações práticas e aplicadas, com exemplos e sugestões e não só conceitos.

No mais, a pesquisa ainda alerta para os principais desafios enfrentados pelos professores no dia a dia, entre os quais se destacam: desinteresse dos estudantes (31%), defasagem (28%) e indisciplina (18%) (Todos pela educação et. al, 2023). 

No que tange ao desinteresse dos alunos, as metodologias ativas e a educação socioemocional, já abordadas no texto anterior, são fatores importantes para lidar com ele, porque atuam em duas questões centrais quando falamos de educação: a necessidade de acolher o estudante dentro do ambiente escolar e de explicar a ele o porquê de aprender. O modelo bancário, como colocado por Paulo Freire, baseado em um ensino passivo e acrítico, no qual o estudante fica horas sentado ouvindo alguém falar, não se sustenta mais. O aluno precisa compreender o sentido de estar na escola e qual papel ela exerce na vida dele e na sua formação.

Assim, outro ponto a ser levado em consideração para lidar com o desinteresse é entender a escola como um recorte da sociedade, no sentido de trazer para dentro dela discussões atuais, como gênero, orientação sexual e racismo.

Quando falamos de defasagem, por sua vez, é necessário saber lidar com os diferentes níveis de aprendizagem existentes dentro de uma sala de aula. Como ensinar equação do 2º grau, se parte dos alunos ainda não sabem o que é uma equação do 1º grau? O professor precisa ter ferramentas para lidar com essa e outras questões. Já com relação à indisciplina, são necessárias estratégias de gestão de conflitos.

Diante de todo o exposto, seguem mais 4 temas para a lista de formação de professores:

  • Gênero e orientação sexual

A compreensão sobre os conceitos de gênero e orientação sexual é necessária na formação de professores, principalmente diante da dúvida constante dos estudantes sobre essas questões. 

Através do convívio social e do acesso à internet e, em especial, às redes sociais, os estudantes têm contato com diversas informações sobre essa temática e querem entender mais sobre ela. Assim, podem questionar os professores, por exemplo, sobre a sigla relacionada à orientação sexual (LGBTQIA+), ou sobre o que é ser trans não binário. Enquanto professora de Língua Portuguesa, para exemplificar uma situação prática, já fui questionada diversas vezes sobre o que são pronomes neutros, por que eles existem e como usá-los. São curiosidades genuínas deles, e é importante saber respondê-los e orientá-los para  que eles não reproduzam preconceitos e discriminações.

Outros fatores a serem trabalhados dentro dessa temática dizem respeito, por exemplo, à violência de gênero e por orientação sexual, à diferença salarial entre homens e mulheres e a influência desses dois fatores na acesso ao mercado de trabalho. Abordar essas questões não impede o cumprimento do currículo, pois elas podem ser incluídas no trabalho de diferentes habilidades. Mesmo em uma aula de Matemática elas podem estar presentes, como em um trabalho sobre leitura e compreensão de gráficos que tratem de dados sobre a temática.

A escola não pode negar questões sociais latentes como essas. Os estudantes precisam ter uma formação de qualidade para conhecê-las, entendê-las e saber usá-las em diferentes contextos para se tornarem cidadãos cientes e críticos.

  • Educação antirracista

A educação antirracista também é essencial para que os professores não reproduzam falas e atos racistas e saibam lidar com situações de racismo dentro da sala de aula. 

No mais, eles também precisam ter direcionamento para saber como incluir a questão racial em sua aula de forma contínua. Ela, inclusive, deve permear todas as disciplinas, não deve ser um compromisso só das matérias do núcleo de Humanas. Matemática, por exemplo, pode incluí-la na leitura e compreensão de dados, Língua Portuguesa pode trazê-la em um debate regrado, e Ciências pode abordá-la diante da falta de cientistas negros reconhecidos. É importante os professores terem repertório, com materiais de apoio e sequências didáticas, para tratar dessa questão tão necessária e urgente. 

  • Como lidar com níveis de aprendizagem distintos entre os estudantes

No ano passado (2022), um dos temas mais comentados foi a recomposição de aprendizagem, diante das consequências trazidas pela pandemia, que interrompeu ou prejudicou o processo de aprendizagem dos alunos. Mas, quando nos deparamos com uma sala com 40 estudantes, é difícil saber como aplicar uma metodologia de ensino que atenda as necessidades de todos e avaliações diversificadas que sejam adequadas aos graus de conhecimento e habilidades de cada um. A formação precisa mostrar ao professor como fazer isso, trazendo esclarecimentos e ideias para que ele consiga construir suas próprias práticas de ensino e de avaliação, de acordo com as turmas que trabalha.

  • Gestão de conflitos

Os professores ainda devem ter acesso a formações para saber como resolver os conflitos que surgem dentro da sala de aula, de modo a gerar o mínimo de impacto ou dano a qualquer uma das partes envolvidas. Isso é importante, inclusive, para que o educador consiga construir um relacionamento baseado em respeito e confiança com seus estudantes, o que contribui para uma cultura saudável dentro do ambiente escolar. Além disso, um ponto essencial para essa formação diz respeito à comunicação não-violenta, a qual está pautada na colaboração e na compreensão entre as pessoas.

Pelo exposto, é necessário ouvir os professores e entender qual apoio eles precisam para gerar mudanças. Ou seja,  as formações precisam estar de acordo com a realidade escolar vivenciada pelo docente. Além disso, formações teóricas, acabam por frustrar o professor, uma vez que nem sempre ele vai saber como usar essas informações na prática. É importante trazer exemplos aplicáveis e ideias para instigar o professor a construir e revisar suas práticas pedagógicas.

Como você avalia as formações da sua rede? Que tal conhecer mais sobre as opções oferecidas pela Curiós? Dê uma olhada nessa página e entre em contato!

Referências:

TODOS PELA EDUCAÇÃO et al. Pesquisa de opinião com professores e professoras de escolas públicas brasileiras. Disponível em: <https://todospelaeducacao.org.br/wordpress/wp-content/uploads/2023/02/pesquisa-com-professores-resultados-nacionais-todos-ip-is-pd.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2023.

compartilhar

Relacionados

Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo? por Joice Andrade       Quadro e giz, (…)

Educação no campo: saberes da terra, vozes do Serrote

Por Lucas Sobreira  No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, (…)

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS:

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA? por Lucas Kauan N. De Santana No Brasil, a atuação docente (…)

Encontrou o que precisava?

Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!