Os profissionais da educação e o ecossistema educacional

Quem são os profissionais da educação?

Quando falamos da educação, por vezes, nos surgem à mente algumas figuras, como, por exemplo, estudantes, professores, diretores, Secretários de Educação, Ministro da Educação, entre outros, mas nem sempre pensamos em como elas se articulam. Compreender essas relações nos leva ao conceito de ecossistema educacional, que, por sua vez, nos traz a ideia de um processo de encadeamento de instituições e atores que irão influenciar no ensino praticado em sala de aula. 

Para esclarecer, se partimos de uma rede estadual, por exemplo, tendo em vista as orientações e diretrizes do Ministério da Educação e as lei nacionais, temos a Secretaria de Educação do Estado, que se desdobra em Coordenações Regionais de Ensino, as quais englobam, por sua vez, um conjunto de escolas em um dado território. Cada uma dessas instituições possui estruturação e organização própria, além de contar com diferentes atores. Na Secretaria, encontra-se não só o secretário, como superintendentes, técnicos e  outros, nas Coordenações temos os supervisores ou tutores pedagógicos, e nas escolas, há os professores, coordenadores, diretores e funcionários do administrativo/financeiro. Nesse universo de atores, há os profissionais da educação.

De acordo, com o art. 26, § 1º, inciso II, da Lei n.º 14.113/2020, os profissionais da educação básica são:  “docentes, profissionais no exercício de funções de suporte pedagógico direto à docência, de direção ou administração escolar, planejamento, inspeção, supervisão, orientação educacional, coordenação e assessoramento pedagógico, e profissionais de funções de apoio técnico, administrativo ou operacional, em efetivo exercício nas redes de ensino de educação básica” (BRASIL, 2020). Nesse sentido, há uma gama de profissionais da educação, os quais atuam, em sua maioria, diretamente no ambiente escolar, cada um com sua função. 

Ocorre que nem sempre todos eles são devidamente reconhecidos, como é o caso dos profissionais de apoio técnico e administrativo, que acabam por ser invisibilizados, uma vez que não lidam diretamente com os estudantes. Inclusive, dentro da própria escola eles, por vezes, são excluídos dos processos decisórios ou não têm sua opinião considerada, cumprindo apenas o papel formal de auxiliar e registrar a reunião em ata. 

Esse cenário pode ser revertido através de uma gestão escolar democrática, caracterizada pela descentralização dos processos de tomada de decisão entre os profissionais da educação e, por consequência, pelo estabelecimento de relações horizontais entres eles para que as deliberações sobre a organização escolar sejam co-construídas a partir de um fazer coletivo. Nesse sentido, a democracia, enquanto prática dentro da escola, contribui para o alinhamento e comprometimento entre eles para com o desenvolvimento e a aprendizagem dos estudantes, pois permite que cada um entenda sua função dentro de um objetivo maior. Quando estamos diante de uma gestão não democrática, por vezes, cada um realiza suas atribuições sem ter esse olhar para o todo, o que acaba por gerar incoerências entre as medidas que são tomadas por cada integrante.

Para demonstrar a importância do reconhecimento do valor de cada profissional da educação e da articulação entre as ações implementadas por cada um deles, vou apresentar alguns exemplos:

  1. Compra de material escolar:

Dentro de uma escola são necessários diferentes insumos para a realização do trabalho pedagógico, entre os quais também se encontram os materiais escolares, como cartolina, folha A4, papel cartão, cola, tesoura, lápis de cor, pincel, canetas e tantos outros que podem ser mencionados aqui. Assim, a escola, verificando os recursos que já são oferecidos pelo governo e a verba disponível para esse tipo de compra, determina o que será de fato adquirido através de seu setor administrativo/financeiro. Acontece que, se não há uma comunicação entre esse setor e os professores, por exemplo, a decisão tomada pela gestão junto ao administrativo/financeiro pode não ser condizente com as necessidades da sala de aula, gerando falta de um certo recurso e inutilidade de outros. 

  1. Alimentação:

Nem todas as escolas possuem horário definido e dedicado à alimentação, cada dia ele se dá de uma forma, sem se preocupar em como isso afeta a organização das aulas do dia. Por vezes, aulas, atividades e até avaliações são interrompidas para que o estudante saia para comer. A alimentação é essencial, inclusive, para o processo de ensino e aprendizagem, mas é importante haver um alinhamento entre as cozinheiras, coordenação e professores quanto ao horário, para que esse momento seja, de fato, um momento em que o estudante estará concentrado em se alimentar e para que não gere grandes intervenções no processo que está sendo desenvolvido em sala de aula.

  1. Falta dos estudantes:

Nem sempre no ambiente escolar é delimitada de quem é a responsabilidade de realizar a chamada para verificar quais estudantes estão presentes e quais faltaram. Dessa forma, eventualmente, são feitas várias chamadas, chamadas pelos professores, chamada pela coordenação e chamada pelo administrativo, e isso, por vezes, gera discrepâncias entre elas, pois o momento em que a chamada é realizada pode influenciar no quantitativo de alunos presentes e faltantes. Por isso, reforça-se a importância do alinhamento dos profissionais da educação, que, inclusive, facilitaria o trabalho de todos, pois essas ações desarticuladas levam a perda de tempo, que poderia ser usado para outra atividade, e até mesmo a conflitos desnecessários.

Portanto, dentro do ambiente escolar é preciso haver a visualização e o reconhecimento dos diferentes profissionais da educação, que, apesar de assumirem responsabilidades distintas, atuam em prol de um objetivo maior que diz respeito à garantia do aprendizado dos estudantes e de sua formação não só a nível técnico, mas como pessoa e cidadão. Nesse sentido, a gestão democrática surge como grande aliada, uma vez que permite a comunicação e articulação entre eles para que as atividades desenvolvidas por cada um estejam alinhadas.

Referências:

FIRMINO, Carol. Gestão democrática: garantindo instâncias de participação na escola. Nova Escola, 2022. Disponível em: <https://novaescola.org.br/conteudo/21348/gestao-democratica-garantindo-instancias-de-participacao-na-escola>. Acesso em: 06 ago. 2023.
Gestão democrática: Escola como lugar para aprender a ouvir e a se colocar no lugar do outro. Porvir, 2020. Disponível em: <https://porvir.org/gestao-democratica-escola-e-o-lugar-para-aprender-a-ouvir-e-a-se-colocar-no-lugar-do-outro/>. Acesso em: 06 ago. 2023.

compartilhar

Relacionados

Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo? por Joice Andrade       Quadro e giz, (…)

Educação no campo: saberes da terra, vozes do Serrote

Por Lucas Sobreira  No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, (…)

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS:

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA? por Lucas Kauan N. De Santana No Brasil, a atuação docente (…)

Encontrou o que precisava?

Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!