Aprendizagem: início, meio e fim

O estudante e sua percepção sobre o processo de aprendizagem – por Luísa Assis

Nos últimos meses, estou  acompanhando a implementação de um programa de recomposição da aprendizagem junto a escolas da rede estadual da Bahia por meio de visitas pedagógicas. A recomposição da aprendizagem, vale dizer, surgiu como uma resposta à pandemia da Covid-19, no sentido de trabalhar conteúdos e desenvolver habilidades e competências que os estudantes não adquiriram no momento previsto em razão do afastamento do ambiente escolar. Diante desse escopo, ela inclui ações voltadas para o acolhimento dos estudantes, avaliações periódicas, tanto diagnóstica como formativa, priorização curricular, adaptação de práticas pedagógicas, material apropriado e formação de professores (Instituto Unibanco, 2023). 

Assim, durante as visitas pedagógicas, tenho a oportunidade de dialogar com diretores, coordenadores pedagógicos e professores para conhecer mais suas percepções e opiniões sobre o programa em si e sobre a educação como um todo, em especial, quanto aos principais desafios vivenciados ali dentro. Em meio a tantas perspectivas sobre educação, alguns pontos começaram a me inquietar. Quero destacar um deles, que diz respeito ao fato de a maioria das escolas reconhecer que seus estudantes apresentam defasagens maiores e mais profundas depois da pandemia. Elas alegam que o afastamento do ambiente escolar contribuiu para potencializar as lacunas no processo de aprendizagem do aluno, o que prejudica seu desenvolvimento na série em que ele está, porque ele não possui os conhecimentos prévios necessários para adquirir novas habilidades. 

Esse ponto, apesar de parecer algo trivial, me trouxe um sinal de alerta diante do segundo e último ponto que quero trazer aqui. Mesmo que haja essa identificação das defasagens, a recomposição nem sempre é vista como uma possibilidade para lidar com esse problema educacional, pelo contrário, é visualizada por alguns como algo que irá “atrapalhar” o cumprimento do currículo e das atividades previstas. Além disso, para parte dos atores do ambiente escolar, não é responsabilidade do professor da 3ª série do Ensino Médio, por exemplo, resgatar as habilidades que o aluno não aprendeu no 9º Ano. 

Ocorre que a aprendizagem é um processo, e se eu não olho para ele não consigo intervir para aperfeiçoá-lo. Mais do que cumprir currículo ou atender a demandas de projetos e outras atividades, o foco da escola deve ser a promoção e a garantia do aprendizado enquanto um direito primordial do estudante. Na verdade, todas essas ações devem ser direcionadas para o aluno e para seu processo de formação. O currículo, por exemplo, deve servir para ampliar a aprendizagem do aluno e não para constituir uma barreira, afinal, checklist de currículo não representa aprendizado.

Nesse sentido, resgatar a importância e o valor da aprendizagem dentro da escola e para cada um de seus atores é urgente. Em um momento em que diferentes redes de ensino realizam e vivenciam cobranças contínuas para o alcance de metas e resultados e/ou para o desenvolvimento de inúmeros projetos e ações, a aprendizagem não pode ser uma consequência secundária. Pode parecer estranho reforçar o quão fundamental ela é, até porque “o aluno vai para a escola para aprender”, mas se não houver um olhar intencional para ela, ela pode se dissipar do nosso foco. E mais do que diretores, coordenadores pedagógicos e professores, os estudantes também precisam estar cientes da aprendizagem e do caminho que é necessário para alcançá-la, afinal, ela depende essencialmente deles. Por vezes, encontramos diferentes ações para sensibilizar e mobilizar as redes de ensino e as escolas que as compõem sobre a importância da garantia da aprendizagem, através de dados e de pesquisas, mas os alunos, muitas vezes, não são incluídos nessa equação.

Então, como contribuir para que os alunos consigam perceber e refletir sobre o seu próprio processo de aprendizagem? Independentemente de estar trabalhando com as habilidades do currículo, com conteúdos previstos na recomposição da aprendizagem ou com um projeto escolar, algumas dicas simples podem ajudar na hora de mostrar para seus estudantes o propósito do que está sendo feito e como aquilo se conecta com o aprendizado deles.

  1. Deixe claro o objetivo daquilo que será desenvolvido em aula e, se possível, já exponha logo no início qual percurso será realizado para atingir esse objetivo. É importante que os estudantes percebam o planejamento até para que assimilem que ele deve fazer parte do seu próprio estudo.
  2. Acione conhecimentos prévios dos alunos, especialmente, se for algo que você, enquanto professor, trabalhou com eles antes. Isso os ajudará a entender como a aprendizagem é um processo e envolve co-construção.  
  3. Inclua as avaliações ao longo do processo de formação como algo natural para a verificação da aprendizagem. Os alunos, muitas vezes, veem uma atividade ou uma prova como algo que irá julgá-lo e classificá-lo, mas a avaliação é necessária tanto para eles como para o professor conseguir identificar e entender as habilidades que eles já adquiriram e quais ainda não. Inclusive, oferecer esse tom para as avaliações contribui para o momento em que eles forem realizar avaliações externas como o SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), pois será mais fácil para eles compreenderem qual a função desse tipo de prova.
  4. Dê um feedback qualitativo para as atividades e provas feitas pelos alunos. Isso dará maiores recursos para eles entenderem o que a nota e o que os acertos e erros representam.

Sabemos que questões sistêmicas acabam por atravessar a aprendizagem e não é algo que podemos negar, afinal as cobranças para fechar o bimestre e atender a todas as habilidades previstas ou alcançar a meta do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, medido pelo Saeb e pela taxa de aprovação da escola) estão ali o tempo todo. Contudo, não podemos perder de vista o nosso aluno e sua aprendizagem, até porque o resultado do trabalho realizado está nele, na aprendizagem que ele conseguiu alcançar. Dessa forma, a aprendizagem deve ser o início, o meio e o fim das nossas ações dentro do ambiente escolar.

E para você, qual lugar a aprendizagem deve ocupar dentro do ambiente escolar? Entre em contato com a gente e deixe seu comentário ou experiência!

Referências:

Aprendizagem para o domínio: por que é importante estar atento a isso? Porvir. Disponível em:<https://porvir.org/aprendizagem-para-o-dominio-por-que-e-importante-estar-atento-a-isso/>. Acesso em: 08 out.2023.

Como fazer os estudantes refletirem sobre o próprio aprendizado? Porvir. Disponível em: <https://porvir.org/como-fazer-os-estudantes-refletirem-sobre-o-proprio-aprendizado/>. Acesso em: 08 out. 2023.
Recompor aprendizagem  ainda é um desafio em 2023. Instituto Unibanco. Disponível em: <https://www.institutounibanco.org.br/boletim/recompor-aprendizagem-ainda-e-desafio-em-2023/>. Acesso em: 08 out.2023.

compartilhar

Relacionados

Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo? por Joice Andrade       Quadro e giz, (…)

Educação no campo: saberes da terra, vozes do Serrote

Por Lucas Sobreira  No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, (…)

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS:

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA? por Lucas Kauan N. De Santana No Brasil, a atuação docente (…)

Encontrou o que precisava?

Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!