Conceito de educação: entre os discursos e a prática

Na educação é possível uma chave abrir todas as portas?

Quando falamos sobre o conceito de educação eventualmente surgem falas, como: “A educação é o caminho”, “só a educação poderá mudar os rumos desse país”, “a educação é a chave para o futuro”. Essas frases aparecem em debates sobre diversos temas, desde segurança pública, violência e criminalidade até meio ambiente. Nessa perspectiva, a educação é vista como uma fórmula mágica para a resolução de uma série de problemas. Mas quem está no dia a dia da escola conhece o outro lado da história. O conceito de educação não é simples assim. Você talvez já tenha vivenciado uma ou mais das circunstâncias citadas abaixo:

  • Salas superlotadas,
  • Falta de recursos e infraestrutura adequada, 
  • Ausência de diálogo articulado entre os atores do ambiente escolar, 
  • Falta de orientação pedagógica e de formação para os professores quanto às mudanças curriculares e às novas metodologias de ensino, 
  • Carga excessiva de trabalho, 
  • Desvalorização do professor, 
  • Cobrança por resultados, 
  • Falta de ações com foco no desenvolvimento de habilidades socioemocionais e no cuidado com a saúde mental, 
  • Estudantes indisciplinados e agressivos, e
  • Pouco engajamento na relação família-escola. 

Todos os pontos citados representam desafios constantes de parte considerável das escolas do nosso país. Diante desse cenário, o conceito de educação não corresponde apenas a estar em sala de aula e ensinar-aprender um conteúdo determinado. É necessário lidar com diversas dessas questões e, muitas vezes, simultaneamente. 

Ademais, o processo educativo ultrapassa os muros da escola e comunica-se com o mundo externo. Assim como os estudantes levam os conhecimentos obtidos na escola, eles também trazem para dentro dela conhecimentos, dúvidas e questionamentos. O aluno não é uma tábula rasa pronta para receber e absorver as mais variadas matérias. Na verdade, trata-se de um ser complexo, o qual carrega uma bagagem de vivências e experiências, as quais se manifestam durante o percurso de aprendizagem. Essas vivências podem, por exemplo, trazer desde um conhecimento prévio até um trauma. 

Todos esses pontos são ressaltados não com o intuito de olhar para a educação pelo ângulo da escassez, pelo contrário, o que se quer é demonstrar a importância de um olhar contextualizado para ela. Não existe um conceito de educação universal adequado para toda e qualquer realidade. Existem, na verdade, educações plurais e diversas, as quais também são influenciadas pela cultura do lugar onde está inserida. 

Nesse sentido, é preciso reconhecer as potências e os pontos de melhoria da rede ou da escola analisada para se pensar um projeto de educação condizente e coerente com sua realidade. Afinal, a escola não é apenas um espaço para transmitir conhecimento técnico, mas também é responsável pela formação de seus estudantes enquanto indivíduos e cidadãos. Inclusive, falamos um pouco mais sobre isso nesse outro post que vale a pena ser conferido 😉

A educação não se resume, como posto por Paulo Freire, ao ensino bancário, no qual o educador é o “depositante” e o educando é o “depositário” do conhecimento. Nas palavras do mesmo autor, “ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo: os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 1996). O conhecimento, portanto, não se dá somente em uma única via, partindo do professor e indo de forma direta e passiva para o aluno. Ele também ocorre do estudante para o professor, além de poder se dar entre os estudantes. Deve haver um diálogo entre educador e educando, a partir do qual esses papéis possam ser alternados. Até porque a educação é um processo de busca (FREIRE, 1996)! Os alunos têm de ser chamados a descobrir, a pensar, a refletir, a problematizar, a criar e a solucionar.

Para construir esse processo, é necessário, então, olhar para o contexto da escola, pensando na comunidade na qual ela está inserida, em como a gestão e a coordenação pedagógica se relacionam e lideram a escola, em quem são os professores, em quem são os alunos, em como se dá a relação entre os diferentes atores do ambiente escolar, entre outros pontos, para se pensar em um projeto de educação que realmente chame o estudante para a construção do conhecimento. Nas palavras do poeta João Cabral de Melo Neto, buscar:

“uma educação pela pedra: por lições

para aprender da pedra, frequentá-la”.  

A educação é sim a chave para a resolução de uma série de problemas, mas essa chave não é única nem universal. Uma chave consegue não abrir todas as portas.

E para você, o que é educação? Quais fatores a influenciam? Mande pra gente sua contribuição para avançarmos cada vez mais nos debates sobre o tema.

Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 81. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2019.

MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.   

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Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!