Caminhos e estratégias para a diversidade no ensino fundamental – por Marina Queiroz
No dicionário, diversidade é “qualidade daquilo que é diverso, diferente, variado; variedade”. Quando você, leitor/a, lê a palavra diversidade, o que vêm a sua mente?
Podemos pensar na diversidade racial e étnica, nas diferentes culturas, linguagens, territórios e formações históricas que cada grupo social faz parte ou na diversidade referente às pessoas com deficiência (PCD’s). Entretanto, a diversidade pode ser ainda mais ampla e entendida por outros aspectos: uma criança indígena que vive na aldeia com outras crianças tem as suas próprias particularidades, o seu jeito de pensar, de aprender e de ser, mesmo sendo da mesma etnia. Cada ser é único.
Ou seja, a diversidade pode ter recortes amplos: etnia, raça, gênero, sexualidade, cultura, deficiências de natureza física, mental, intelectual ou sensorial. Conjuntamente, a diversidade também tange os aspectos individuais do ser, como cada um se construiu a partir do que o seu meio influenciou. Por isso, os dois aspectos se relacionam intrinsecamente, uma vez que o desenvolvimento de uma pessoa depende do meio e desses recortes amplos citados anteriormente e de como internaliza quem se é perante a sociedade.
Quando falamos do nível de aprendizagem dos estudantes, a diversidade se faz presente da mesma forma. Existem diferentes tipos de inteligências e formas de aprender. Há estudantes que aprendem facilmente com músicas, esquemas visuais e com filmes, fotografias. Há outros que aprendem com a leitura, realizando resumos e ensinando para outros o que aprendeu. Enquanto isso, há estudantes com muito mais facilidade em matemática, raciocínio lógico e outros que conseguem se desenvolver mais com as disciplinas de leitura, argumentação e escrita. Aliás, falamos um pouco sobre os diferentes perfis da sala de aula em outro texto do blog da Curiós, e você pode conferi-lo aqui.
Abranger toda a diversidade de estudantes, considerando etnia, raça, deficiências, gênero, sexualidade, cultura e os aspectos individuais de aprendizagem pode parecer complexo e de certa forma é, mas também proporciona um campo fértil, potente e criativo para a escola e sala de aula, na elaboração de atividades, gincanas, planos de aulas ou de projetos. Há um nome para esse compromisso de desenvolver escolas que acolham todos os estudantes: a educação inclusiva, que propõe a educação de e para todas as crianças, adolescentes, jovens e adultos, sem nenhum tipo de exclusão.
Mas, como podemos desenvolver escolas com base na educação inclusiva e com respeito à diversidade?
Há um tempo postamos sobre a diversidade etnocultural na educação infantil e três dicas foram compartilhadas com os leitores, são elas: conhecer quem são os seus estudantes e permitir que eles se conheçam também, identificar se as identidades dos alunos estão sendo representadas em aulas e trabalhar a diversidade em sala, seja a partir de materiais que tragam a representatividade ou dando voz aos alunos.
Ao trazermos esse tema para a etapa do Ensino Fundamental, precisamos de atenção, pois temos públicos bem distintos no que tange a idade, então, ao trabalharmos a diversidade nos anos iniciais, a ludicidade e as brincadeiras precisam ser mantidas. Nos anos finais, principalmente no 8º e 9º ano, os debates com temas sobre a diversidade, a pesquisa sobre a origem da comunidade e dos estudantes, a construção de feiras sobre temas como a diversidade étnica, cultural, sobre a educação inclusiva podem ser realizadas tendo os estudantes como protagonistas.
Como Secretários, coordenadores e professores podem proporcionar um ambiente inclusivo, acolhedor e fértil para a aprendizagem no Ensino Fundamental?
Secretários: Vocês estão em uma posição em que a mudança poderá tomar proporções gigantescas ao olharmos para os números, e essa mudança tende a gerar ótimos frutos no pertencimento, engajamento e na aprendizagem dos estudantes. Para colocar na agenda prioritária a educação inclusiva, é preciso que:
- Os gestores, coordenadores e professores tenham formações sobre a educação inclusiva e a diversidade, com metodologias e práticas que permitam ensinar um tema de diferentes maneiras, considerando as especificidades do alunato;
- Observem os materiais didáticos e ofertem aqueles que abordem o tema da educação inclusiva, que tragam assuntos como a diversidade étnico-racial, culturais, de gênero, de deficiências, entre outros;
- Garantam que haja conhecimento e proximidade entre a escola, os estudantes, familiares e gestores, educadores, professores;
- Estimulem práticas, projetos, feiras, em que a diversidade esteja como foco através do olhar dos estudantes;
- Proporcionem trocas entre as escolas sobre o que está dando certo e o que não está sobre o tema da diversidade e da educação inclusiva.
Coordenadores: Ao pensar na função de coordenação pedagógica ou coordenação da escola como um todo, as palavras desafio e possibilidade vêm à mente. Por que não:
- Pensar em gincanas com atividades diferenciadas de acordo com as diversas habilidades dos estudantes? Pode ter uma atividade com música, outra com corrida, futebol, basquete, outras atividades de desenho, poema, rap, outras de colaboração, empatia, trabalho em grupo. Para isso, é importante conhecer o contexto da escola e os seus estudantes.
- Propor projetos com os professores, pensando na diversidade que também tangencia cada um deles? Uma roda de conversa entre os professores para que haja trocas sobre quem são eles, práticas exitosas, incômodos e alegrias da profissão, pode gerar engajamento entre os docentes.
Professores: São os que estão na ponta, que lidam diariamente com o foco de uma escola: desenvolver os estudantes. A proposta é:
- Conhecer os seus estudantes e auxiliar que eles se conheçam: o que gostam, de onde vieram, quem são os seus familiares (e a construção de suas árvores genealógicas). Esse pode ser um caminho muito interessante de desenvolvimento de habilidades socioemocionais e de autoconhecimento.
- Que haja espaço para acolhimento, rodas de conversa, diálogos com respeito ao outro. Para isso, estabelecer comportamentos aceitáveis e comportamentos não aceitáveis entre os estudantes pode ser um caminho;
- Ações interdisciplinares para promover diálogos sobre a educação inclusiva e o autoconhecimento. Por que não história e ciências, para falar sobre o corpo humano (condições físicas, emocionais e psíquicas) e a história dos povos do Brasil e daquele território? Adequando a cada etapa de ensino, por exemplo, nos anos iniciais esse tema pode ser trabalhado com teatros de marionetes e muita ludicidade.
Gostaram? Estamos aqui para lhe oferecer apoio. Contem com a gente ☺
Referências:
FERREIRA, Windyz B.; MARTINS, Regina Coeli B. De docente para docente: práticas de ensino e diversidade para a educação básica. Grupo Editorial Summus, 2007.
RIOS, Jane Adriana Vasconcelos Pacheco; NUÑEZ, Joana Maria Leôncio; FERNANDEZ, Osvaldo Francisco Ribas Lobos. Diversidade na educação básica: Políticas de sentido sobre a formação docente. Revista da FAEEBA-Educação e Contemporaneidade, v. 25, n. 45, 2016.
http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/educarnadiversidade2006.pdf
