Um aspecto de educação democrática para a participação do estudante
Por Ravena Albuquerque
Para várias áreas da sociedade, o envolvimento em processos democráticos diz respeito a aspectos centrais da saúde e do bem-estar das pessoas. No entanto, a participação estudantil no ensino, envolvendo os alunos em processos democráticos de tomada de decisões coletivamente, é ainda pouco explorada como aspecto de saúde dos estudantes na escola.
Experiências provenientes da participação dos estudantes deveriam ser uma preocupação de saúde pública. Em muitos Estados democráticos, os estudantes possuem o direito de exercerem influência na maneira como sua educação e suas escolas funcionam. Isso ocorre com o objetivo de desenvolver as capacidades dos alunos a participarem ativamente na sociedade em que vivem. Para isso, os pesquisadores Zofia Hammerina, Erik Anderssonb e Ninitha Maivorsdottera estudaram a relação da participação dos estudantes no ensino, e como isso pode melhorar a saúde deles.
Na pesquisa, elaborada em escolas para meninas na Suécia, algumas suposições foram feitas com relação à prática do ensino.
- A participação dos estudantes é condicionada, situada e dependente do incentivo, motivação e aproximação dos professores aos estudantes;
- A participação é vista em termos qualitativos, onde o poder é uma possibilidade mútua para agir com os outros;
- A liderança pedagógica dos professores orienta as interações e comunicações e determina o limite até onde os estudantes podem participar e exercer influência;
- A aproximação dos professores determina o tipo de participação estudantil que é possível.
Todo o ensino é baseado em objetivos e propósitos, que por sua vez coordenam as relações de poder entre professores e estudantes e suas diferentes experiências, atitudes, interesses e mais. Desse modo, a participação estudantil é orientada por métodos e estratégias que são utilizadas para informar, comunicar e interagir com os estudantes e o conteúdo a ser aprendido. Além disso, o impacto de espaços diferentes e suas condições materiais implica diretamente no processo de ir da teoria à prática.
Nesse sentido, comunicação é uma ação essencial. Os pesquisadores definem comunicação como um processo em que os indivíduos agem juntos com o objetivo de alcançar uma meta comum, havendo trocas de formas de pensar e fazendo algo em comum numa coordenação mútua de ação.
Ademais, a participação dos estudantes de forma ativa também foi considerada importante com relação a como isso os afeta pessoalmente, e, consequentemente, os faz mais engajados como cidadãos e em sua vida diária. É importante, também no viés do ensino, empoderar os estudantes a assumirem uma posição de protagonismo e a erguerem sua voz. Falamos sobre isso nesse outro post, em que destacamos o uso de metodologias ativas como recurso importante nesse processo!
A capacidade de tomar decisões é bastante importante para a participação dos estudantes no convívio social e nas políticas públicas do Estado. A participação dos alunos contribui para eles expressarem seus problemas e articularem possíveis soluções. Consequentemente, a participação estudantil no ensino significa estar envolvido no planejamento, execução e avaliação do ensino que eles recebem. Isso estimula os estudantes a participarem e influenciarem no seu processo de aprendizagem e em situações educacionais.
Cabe aos professores controlar as condições para os estudantes participarem do ensino. Basicamente, essa ação pode ser dividida em quatro etapas:
- Professores abordam os estudantes como agentes de transformação da sociedade – Que formas de comunicação/interação caracterizam a relação entre estudantes e professor?
- Relações de poder – Que tipos de atividades, formas de participação e influência em tomadas de decisão serão designadas para cada um?
- Liderança pedagógica – Que características de liderança pedagógica o professor deve ter?
- Abordagem dos professores para o ensino – O que caracteriza a abordagem do professor para questões educacionais de aprendizagem, como objetivos, conteúdo, métodos, técnicas etc?
Um professor ou uma professora que se comunica com os estudantes tem um estilo de liderança mais democrático e distributivo. Esse estilo é caracterizado pela cooperação, estrutura e respeito pelas diferenças individuais e é, novamente, parte de uma qualificada participação do estudante no ensino.
Nessa pesquisa, o fato de os alunos serem informados e às vezes terem a oportunidade de levantar suas vozes não é o suficiente; nem na perspectiva da saúde, nem da participação democrática. Quando um docente está entendendo a situação, demonstra empatia, se comunica e é cuidadoso com relação a técnicas de estudo ou ao planejamento da carga horária. E os estudantes percebem que essa comunicação reduz o estresse e ajuda a enfrentá-lo.
Consequências democráticas
Portanto, os estudantes deveriam ser incluídos na prática de ensino. Os alunos e alunas são pessoas dentro de uma organização social, que possuem direitos e que exercem uma função de cidadãos. Para isso, na escola deveriam trabalhar junto com os professores numa maneira comunicativa e qualificada, com a finalidade de melhorar sua saúde. Os estudantes não somente experienciam o estresse, mas também têm potencial de solucionar esse problema. Logo, suas experiências devem ser educativas e se estenderem para as experiências do ensino visando ao futuro.
Consequências para uma educação politizada
Em um tempo de aumento de medidas, testes de alto nível, controle educacional, rankings de escolas e competições de notas com uma única dimensão e que focam em qualificações, professores e estudantes estão sob pressão para entregarem bons resultados. Ainda mais, nesse tempo negligenciam-se as dimensões educativas de socialização e subjetificação.
O resultado desse estudo empírico demonstra que estudantes precisam ser capazes para agirem, se comunicarem, colaborarem, trabalharem para atingirem metas coletivas e usarem suas habilidades sociais. Não somente sofrerem as consequências da participação dos estudantes nas práticas de ensino. No ensino, diferentes tipos de participação de estudantes têm de ser usadas numa forma consciente e pedagógica.
Quando os estudantes são capazes de influenciar nas tomadas de decisões e agir como sujeitos políticos, eles e elas irão também ser capazes de fortalecer suas capacidades para agirem coletivamente. E assim, irão aprender a serem agentes de transformação da sociedade.
Ficam duas perguntas para reflexão: Como a liderança pedagógica dos professores podem oferecer suporte à saúde individual dos estudantes e à saúde de uma sociedade democrática? Como essa liderança pode ser aplicada na participação do estudante na sala de aula?
Para continuar essa conversa e pensar soluções para os desafios da sua comunidade escolar, mande uma mensagem! Vamos adorar te ouvir e apoiar nessa missão 🙂
Referências:
Zofia Hammerin, Erik Andersson, Ninitha Maivorsdotter. Exploring student participation in teaching: An aspect of student health in school. International Journal of Educational Research, Volume 92, 2018, Pages 63-74, ISSN 0883-0355. https://doi.org/10.1016/j.ijer.2018.09.007. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0883035518307109
