Entenda como a cobrança por resultados no SAEB e IDEB impacta gestores, professores e estudantes e como construir avaliações mais justas, por Andressa Simão
O SAEB e o IDEB são dois dos principais instrumentos de avaliação da educação básica brasileira. Apesar de seu valor como diagnóstico, atrelar seus resultados à distribuição de verbas públicas e à responsabilização de escolas tem gerado efeitos colaterais importantes.
O que deveria servir como termômetro da aprendizagem, em contrapartida, se transforma em mera busca por resultados, esvaziando a experiência educativa de seu sentido mais transformador.
Neste texto, vamos refletir sobre como equilibrar a importância das avaliações com a construção de uma educação mais justa e significativa.
O que são SAEB e IDEB?
O Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) têm como objetivo medir a qualidade do ensino no Brasil. O SAEB aplica provas padronizadas em áreas como Língua Portuguesa e Matemática, enquanto, o IDEB combina os resultados do SAEB com taxas de aprovação para gerar um único indicador.
Cálculo: IDEB=Nota média nas provas SAEB × Taxa de aprovação
Sua aplicação é a cada dois anos em todo território nacional com o intuito de avaliar o nível de aprendizagem dos estudantes, do 5º Ano, do 9º Ano do Ensino Fundamental e da 3ª Série do Ensino Médio, de maneira censitária, a fim de diagnosticar a qualidade da educação básica.
A avaliação é composta de perguntas para verificar o nível de proficiência das disciplinas de Matemática e Língua Portuguesa, além disso, conta também com um questionário contextual, respondido por alunos, professores, diretores e secretários de educação.
Embora úteis para monitorar o desempenho dos sistemas de ensino, os dois instrumentos passaram a ser usados também como critério para repasse de recursos. Essa prática cria uma pressão intensa sobre gestores e, principalmente, sobre professores de Português e Matemática.
A pressão sobre escolas e professores
Em anos de aplicação do SAEB, o ambiente escolar muda. Diretores organizam simulados, reforços, reuniões de planejamento focadas em resultados. Primordialmente, há mais formação continuada para professores das disciplinas avaliadas das séries que são aplicadas as provas que são: 2º ano, 5 º ano Ensino Fundamental I, 9º ano no Ensino Fundamental II e o 3º série do Ensino Médio.
Os professores sentem a responsabilidade pesar ainda mais sobre seus ombros. A pressão, muitas vezes, desconsidera que a aprendizagem é um processo longo e que fatores externos à escola influenciam profundamente o desempenho dos estudantes.
Segundo Alves e Soares (2013), o SAEB e o IDEB enfatizam os resultados finais, sem considerar as condições reais de ensino, como infraestrutura precária, contextos socioeconômicos vulneráveis e escassez de recursos didáticos.
O abandono escolar e seus impactos no IDEB
Os índices de abandono escolar são alarmantes. De acordo com o IBGE, em 2023, cerca de 9,1 milhões de jovens entre 15 e 29 anos haviam deixado a escola sem concluir a educação básica. O Ensino Médio é a etapa mais crítica: 59,6% dos jovens abandonam os estudos antes de terminá-lo.
A necessidade de trabalhar, a falta de perspectiva e a ausência de políticas públicas eficazes são fatores que alimentam esse cenário. É importante lembrar, sobretudo: o IDEB não mede quem desistiu. Apenas quem ficou. Ignorar essa realidade distorce a leitura da qualidade da educação brasileira.
A avaliação precisa considerar o contexto
É preciso repensar o modelo de avaliação. Nem todas as escolas partem do mesmo ponto, e avaliar todas da mesma maneira aprofunda as desigualdades.
Políticas que consideram apenas a nota final desestimulam o trabalho pedagógico mais profundo. Além disso, podem incentivar práticas contraproducentes, como a aprovação automática ou o treinamento focado apenas no formato da prova reduzindo o processo educativo a um mero treino para “marcar a alternativa correta”. Algo que nós professores e gestores ouvimos em algumas formações.
O que seria mais libertador para um estudante: acertar uma alternativa ou entender o mundo de forma crítica? Estudar, para a maioria dos jovens pobres, é um ato de resistência contra um sistema que insiste, por vezes, em negar seus direitos.
Programas de apoio: paliativos necessários
Medidas como o programa Pé-de-Meia, que oferece incentivo financeiro para estudantes de baixa renda concluírem o Ensino Médio, são tentativas de enfrentar o abandono escolar. Embora paliativas, podem ter impacto positivo na permanência desses jovens na escola. Para saber mais sobre esse incentivo, clique aqui.
Porém, é preciso ir além: não basta manter o aluno dentro da escola — é necessário garantir que a escola seja um espaço significativo e acolhedor. Você pode aprender mais sobre o Programa Pé-de-Meia nesse texto do Blog.
Caminhos para uma avaliação mais justa
- Construir avaliações que considerem o contexto socioeconômico e cultural dos estudantes.
- Valorizar competências como pensamento crítico e criatividade, além do conteúdo tradicional.
- Reduzir o ranqueamento de escolas, priorizando redes de apoio e colaboração.
- Estimular projetos que coloquem o estudante como protagonista de sua aprendizagem.
Conclusão
O SAEB e o IDEB podem e devem continuar sendo ferramentas importantes para a educação brasileira, pois precisamos ver os caminhos que estamos para montar os melhores planos de ação, entretanto esses dados devem ser usados com sabedoria.
Avaliar é importante, mas educar é muito mais. Que possamos construir uma escola em que nossos estudantes não apenas acertem questões, mas também encontrem sentido em aprender e lutar pelos seus sonhos. E que a sociedade como um todo entenda: formar um cidadão é tarefa coletiva.
Afinal, nós professores sempre buscamos evidências para verificarmos a compreensão e a aprendizagem dos nossos alunos, somos especialistas em trazer multimeios para alcançar o conhecimento.
Que tal levar essa reflexão para sua equipe escolar?
Juntos, podemos transformar a avaliação em uma verdadeira ferramenta de emancipação.
Quer saber mais sobre: Qual papel o SAEB deve exercer na tomada de decisões dentro da escola, acesse aqui.
Referências
ALVES, Maria Teresa Gonzaga; SOARES, José Francisco. Contexto escolar e indicadores educacionais: condições desiguais para a efetivação de uma política de avaliação educacional. Educação & Pesquisa, v. 39, n.1, 2013.
INESC. Abandono no Ensino Médio brasileiro duplicou na pandemia. 2023. Disponível em: <https://inesc.org.br/abandono-no-ensino-medio-brasileiro-duplicou-na-pandemia/>. Visto em: 27/04/2025.
CNN Brasil. IBGE: 9,1 milhões abandonaram a escola sem terminar o ensino básico até 2023. 2024. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/ibge-91-milhoes-abandonaram-a-escola-sem-terminar-o-ensino-basico-ate-2023/>. Visto em: 27/04/2025.
Como utilizar as avaliações externas para melhorar a aprendizagem. Instituto Unibanco. Disponível em: <https://www.institutounibanco.org.br/aprendizagem-em-foco/8/>. Visto em: 27/04/2025.
Contexto escolar e indicadores educacionais: condições desiguais para a efetivação de uma política de avaliação educacional. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/ep/a/PkVXrTbnCJDktQxLZNK7dDj>. Visto em:16/04/2025
