Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo?

por Joice Andrade

      Quadro e giz, cadeiras enfileiradas, o professor fala porque detém todo o conhecimento, o aluno escuta. O conteúdo teórico é exposto no quadro para, em seguida, ser praticado por meio de uma lista de exercícios que estimula a reprodução e a memorização. Essas são características do ensino tradicional, aplicado por muitos anos e ainda presente no cotidiano da sala de aula. Nesse modelo, o foco é em quem ensina, o professor, enquanto o aluno é percebido como um agente passivo, capaz de reproduzir o que aprende. No entanto, no cenário educacional atual, essa lógica centrada no professor vem sendo questionada. Novas abordagens em que o aluno passa a ser protagonista de sua aprendizagem estão ganhando cada vez mais espaço. As metodologias ativas e inovadoras ganham cada vez mais destaque justamente por romperem com o modelo tradicional, promovendo uma participação mais engajada dos estudantes.

Esse artigo apoiará educadores, gestores escolares, coordenadores e todos os profissionais da educação a compreender e aplicar essas metodologias. Além de refletir sobre o seu papel essencial para melhoria do engajamento dos alunos e otimização dos resultados acadêmicos.

Afinal, o que são metodologias ativas e inovadoras?

   As metodologias ativas e inovadoras são práticas pedagógicas que incentivam o protagonismo do aluno. Nessas metodologias, o conhecimento não é simplesmente transmitido, mas construído de forma colaborativa, prática e significativa. Elas desenvolvem no aluno autonomia, pensamento crítico e capacidade de aplicar os saberes adquiridos para resolução dos desafios do cotidiano. Dessa forma, o professor passa a ter o papel de facilitador e orientador, transformando a dinâmica do processo de ensino-aprendizagem.

Contribuição das metodologias ativas e sua relação com a pirâmide de Glasser

O psiquiatra norte-americano William Glasser, conhecido por desenvolver a pirâmide da aprendizagem, afirma que existem diferentes níveis de aprendizado, que variam com o método utilizado. De acordo com seus estudos, foi possível perceber que o aluno tende a ter uma maior eficácia no desenvolvimento e consolidação do conteúdo, através de metodologias que o coloque como um agente ativo do processo.

Por isso, essa pirâmide expressa uma base responsável por 95% do aprendizado, na qual o estudante aprende melhor ao explicar, resumir, estruturar, debater e ensinar aos outros. Desse modo, o aluno é capaz de assimilar o conteúdo de forma mais rápida e segura, enquanto que somente ao ler, ouvir e ver o aluno é colocado em um espaço passivo de assimilação de saberes.

     A própria BNCC, traz que a educação deve promover a “superação da fragmentação radicalmente disciplinar do conhecimento, o estímulo à sua aplicação na vida real, a importância do contexto para dar sentido ao que se aprende e o protagonismo do estudante em sua aprendizagem e na construção de seu projeto de vida” (BRASIL, 2018).

    Logo, fica clara a importância da utilização de metodologias ativas e inovadoras, uma vez que proporcionam a melhor fixação do conteúdo, e para além de desenvolver habilidades acadêmicas, contribuem também para o desenvolvimento de habilidades e competências socioemocionais, interpessoais e profissionais.

Entre as metodologias ativas mais conhecidas, destacam-se:

  • Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP): busca envolver os alunos em projetos, incentivando a realização de pesquisas, investigações, análises de dados e propostas de soluções para problemas reais. Além de gerar uma cooperatividade entre os estudantes, possibilita a interdisciplinaridade e torna o conteúdo significativo. Quer saber mais, veja aqui!
  • Gamificação: faz uso de elementos narrativos utilizados em jogos, para promover um espaço de aprendizagem mais lúdico, motivador, desafiador e divertido, conseguindo assim maior engajamento dos estudantes. Para isso, essa metodologia trabalha com: pontos, níveis, desafios com progressão de dificuldades, objetivos claros, premiação e recompensas. Quer saber mais sobre essa metodologia: descubra a relação da gamificação e da personalização nesse artigo do nosso Blog. Conheça também uma experiência de escola internacional que tem todo o seu currículo baseado na gamificação.
  • Aprendizagem baseada em jogos (ABJ): essa metodologia usa a própria dinâmica do jogo para tornar o aprendizado mais lúdico, útil e conectado com o mundo do aluno. Isso aprimora o raciocínio lógico, diminui as distrações e facilita a absorção de novos conhecimentos.
  • Sala de Aula Invertida: nessa metodologia, como o próprio nome cita, o processo é invertido. Nela o aluno estuda os conteúdos teóricos em casa, por meio de leituras, vídeos, pesquisas e outras fontes, e, na sala de aula ele usa os conhecimentos adquiridos para compartilhar com os colegas, debater, questionar, pensar criticamente e propor soluções, com a mediação do professor. Saiba mais aqui!

Como implementar na prática?

    Traremos agora algumas sugestões de uso dessas ferramentas, mas é importante compreender que não existe fórmula mágica e que cada escola tem a sua realidade, portanto adapte da melhor maneira ao seu contexto escolar.

Exemplos práticos para te inspirar:

  • Rotação por estações para recomposição: essa é uma metodologia excelente para trabalhar em salas heterogêneas, onde cada grupo de alunos se encontram em níveis diferentes de desempenho, assim como para recompor as aprendizagens. Através de diagnósticas, o professor consegue saber onde cada aluno se encontra e separá-los por grupo, assim cada grupo vai ter seu foco em habilidades ainda não consolidadas e avançando para as mais complexas, à medida que assimilam as antecessoras. Conheça aqui outra prática com essa metodologia!
  • Jardim compartilhado: se sua escola possui espaço favorável, essa seria uma excelente oportunidade de aplicar a metodologia de aprendizagem baseada em projetos. Durante o processo da construção, além de desenvolver o espírito de coletividade e um olhar sustentável, eles seriam capazes de aprender e colocar em prática conceitos de biologia, matemática, ciências e até mesmo história (pesquisando o uso de plantas na medicina ao longo dos tempos), permitindo assim um trabalho interdisciplinar.

Mais ideias práticas:

  • Criando uma pesquisa estatística do zero: outra prática que permite o uso da ABP, é propor aos estudantes o processo de criação de um pesquisa estatística, uma vez que precisam pensar em um problema do mundo real ou mesmo da comunidade onde estão inseridos, buscar fontes que tratam sobre o problema escolhido para conhecerem com maior profundidade, coletar dados, analisar esses dados, e compartilhá-los com os colegas, gerando assim um espaço de reflexão e até mesmo de brainstorming para soluções, de certa forma envolvendo também a metodologia da sala de aula invertida. Dessa forma não trabalha apenas matemática, mas todas as disciplinas envolvidas com os temas escolhidos, permitindo a interdisciplinaridade e desenvolvendo o pensamento crítico e resolutivo, além de habilidades sociais e coletivas.
  • Somos todos professores: não é difícil encontrarmos salas de aulas superlotadas e professores que se sentem perdidos em como alcançar a todos os alunos de forma individualizada, sinto te informar, mas isso de fato não é possível. Entretanto, uma grande oportunidade vista a esse desafio, são seus próprios alunos. Usar os alunos para apoiar no processo ensino-aprendizagem, vai te ajudar a ter esse alcance amplo, além de engajar e fixar melhor os conteúdos. Para isso, pode selecionar alunos com maior domínio dos conteúdos e torná-los “professores”, podendo dar a cada um deles, um grupo de colegas aos quais ficarão responsáveis por guiar o aprendizado e para tornar mais lúdico esse processo, pode criar crachás e caderninhos onde anotarão a evolução de seus colegas, e pensando em motivar os alunos que estão sendo guiados, apresente a oportunidade que terão de ao consolidarem os conteúdos, passarem a ser também “professores”.

Agora com o apoio da Tecnologia:

  • Aprendendo e jogando: lembra que falamos da aprendizagem baseada em jogos? Então, é possível utilizar aplicativos e sites de jogos, como por exemplo o Wordwall, que através de jogos permitem a fixação dos conteúdos, como também propor aos seus alunos que eles mesmos criem seus jogos físicos ou virtuais, independente da disciplina, ou mesmo um jogo interdisciplinar, incentivando a criatividade. Após a criação podem fazer ainda uma feira de jogos e apresentar para a comunidade escolar, tornando um momento de partilhas de conhecimentos e de diversão também.
  • Plataformas Adaptativas: plataformas on-lines como Khan Academy e Plurall, são só exemplos de sistemas educacionais tecnológicos que permitem um aprendizado personalizado, ajustável ao ritmo do aluno e geram feedbacks individualizados. Com essa prática, é permitido ao aluno uma autonomia ao estudar e uma corresponsabilização nesse processo, uma vez que ele mesmo é capaz de visualizar seu desempenho e onde precisa melhorar.
  • Gamificação em sala de aula: usar ferramentas como o Kahoot! e o Quizlet permite que os alunos participem de competições de quiz, revisando conteúdos, avaliando e tornando o aprendizado mais motivador e engajante. Sua escola não dispõe de equipamentos ou internet? Não se preocupe, é super possível trabalhar com a gamificação sem fazer uso de dispositivos eletrônicos, como vimos em seu conceito, basta que sejam atribuídas ao processo as narrativas de um jogo. Por exemplo, em período de revisão de conteúdos, pode dividir a sala em dois grandes grupos, levar uma caixa com perguntas e fazer uma dinâmica de quem responde primeiro, colocando as regras, pontuando e elevando os níveis de dificuldades. Desenvolve assim o espírito de equipe, de colaboração, e quando usadas tecnologias, a orientação do bom uso da internet.

Percebeu como é necessário pensar sobre metodologias ativas e inovadoras para aplicar durante as aulas?

Esse artigo não tem o intuito de mostrar o ensino tradicional como defasado, uma vez que seus métodos também contribuem para o aprendizado, mas sim de enfatizar a importância de conjuntamente, utilizar-se de metodologias que tragam o aluno para o centro, que estimule-o a querer aprender e assim o faça. Claro, trabalhar com metodologias ativas exige esforço e energia para planejar e executar, mas na educação nada se faz senão com o objetivo final de garantir a aprendizagem, então se o meio mais eficaz for montar um “circo em sala”, não monte, sozinho, mas convide seus estudantes a montarem com você, escolher os papéis e serem os protagonistas principais do espetáculo.

    Como honrosamente pude escutar em uma palestra de Cipriano Luckesi, onde contou sobre a fala de seu professor para com ele, desejo que o seu lema enquanto educador e/ou profissional da educação seja sempre: “VOCÊ vai APRENDER, porque eu vou te ensinar”. O ensino é o meio, nunca o foco, porque é na aprendizagem que o conhecimento ganha significado, propósito e gera transformação.

A Curiós apoia o professor para se desenvolver como educador inovador:

Para que o professor possa inovar de forma eficaz, ele precisa de apoio emocional para se adaptar a essa nova dinâmica e lidar com os desafios de transformar a sala de aula. Esse apoio é crucial para que o professor mantenha seu bem-estar, sua motivação e, consequentemente, consiga criar um ambiente propício para o “florescer” dos alunos. O florescer é um programa que representa a construção de um conhecimento com significado e propósito. Nele o aprendizado não é apenas memorizado, mas transformado em habilidades socioemocionais, interpessoais e profissionais. O professor precisa se sentir apoiado e seguro para convidar seus alunos a montarem um “circo” em sala de aula. Para então, escolher papéis e tornar os estudantes protagonistas do espetáculo da aprendizagem. Só assim, o conhecimento ganha significado, propósito e gera transformação.

Referências:

BERNARDO, Nairim. O que é a Aprendizagem Baseada em Projetos e como ela pode ser usada na recomposição de aprendizagens. Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/21206/o-que-e-a-aprendizagem-baseada-em-projetos-e-como-ela-pode-ser-usada-na-recomposicao-de-aprendizagens. Acesso em: 20 de março de 2025.

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/ . Acesso em: 19 de março de 2025.

FURTADO, Gabriela. Metodologias ativas para uma educação inovadora. Expedu. Disponível em: https://expedu.com.br/metodologias-ativas-para-uma-educacao-inovadora/ . Acesso em: 21 de março de 2025.

MATIFIC. Aprendizagem baseada em jogos: entenda como funciona e seus benefícios. Disponível em: https://www.matific.com/bra/pt-br/home/blog/2022/08/30/aprendizagem-baseada-em-jogos-entenda-como-funciona-e-seus-beneficios/ . Acesso em: 20 de março de 2025.

MORAN, José. Metodologias ativas para uma aprendizagem mais profunda. Blog moran.eca.usp.br. Disponível em : https://moran.eca.usp.br/wp-content/uploads/2013/12/metodologias_moran1.pdf. Acesso em 20 de março de 2025.

compartilhar

Relacionados

Metodologias ativas e inovadoras: uma ruptura do foco no ensino para o foco na aprendizagem

Como as metodologias ativas podem ser utilizadas para garantir um processo de ensino-aprendizagem mais engajante e significativo? por Joice Andrade       Quadro e giz, (…)

Educação no campo: saberes da terra, vozes do Serrote

Por Lucas Sobreira  No Serrote do Urubu, uma comunidade rural nos arredores de Petrolina, sertão do São Francisco, a educação pulsa entre as pedras, (…)

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS:

ATUAÇÃO DOCENTE EM MÚLTIPLAS ESCOLAS: O QUE ISSO REVELA SOBRE A REALIDADE BRASILEIRA? por Lucas Kauan N. De Santana No Brasil, a atuação docente (…)

Encontrou o que precisava?

Laura Marsiaj Ribeiro

Fundadora e CEO

Laura é mestre em Administração Pública com foco em Educação pela Columbia University e apaixonada por educação. Formada em Economia pela FEA-USP, começou sua carreira como pesquisadora de dados sociais, analisando dados em educação, saúde e emprego. Atuou como professora de matemática em uma escola pública de São Paulo por 3 anos, onde viveu as dificuldades na ponta que contribuíram para a ideação da Curiós. Com anos de experiência no ecossistema empreendedor no Brasil, foi responsável por desenhar e operar programas de inovação aberta. Após o mestrado, trabalhou como consultora de políticas educacionais em Secretarias de Educação municipais e estaduais, no Brasil, pelo programa Formar da Fundação Lemann, e nos EUA, na cidade de Nova York. Fundou a Curiós para juntar sua experiência em inovação e educação, com sua vontade de impactar a educação no Brasil!